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Os esqueletos no armário dos influenciadores e a armadilha do Ozempic: porque nem todos os conselhos para emagrecer merecem confiança

Porque emagrecer a qualquer custo pode levar à perda de músculo e à recuperação do peso, e como escolher exercício sem riscos desnecessários.

Duas mulheres de constituições físicas diferentes em extremos opostos de uma prancha de equilíbrio

O mito da «transformação milagrosa»: fisiologia normal em vez de magia

Conheces aquela história clássica nas redes sociais? Uma influenciadora mostra uma fotografia da adolescência - o rosto um pouco inchado, as bochechas redondas e a cintura ainda pouco definida - ao lado de uma fotografia atual com abdominais visíveis. A legenda diz: «Consegui isto com os meus exercícios exclusivos. Compra o meu desafio de fitness!»

Mas, se olharmos para estas histórias do ponto de vista da fisiologia, parte desse «sucesso» pode estar ligada a mudanças naturais e à maturação do organismo, e não a treinos milagrosos.

Na adolescência, o corpo cresce ativamente. As suas proporções e a distribuição de gordura e músculo mudam. O nosso corpo está literalmente a «encontrar» a sua forma adulta. As oscilações de peso e a retenção de líquidos também influenciam a aparência. Mas duas fotografias não permitem perceber o que realmente mudou: o inchaço, a quantidade de gordura, os músculos ou apenas a iluminação e a pose.

É ótimo quando as pessoas começam a mexer-se e a comer de forma mais consciente. Mas apresentar mudanças naturais do corpo como prova da eficácia de um «método próprio» é, no mínimo, uma manipulação.

O principal problema dos falsos especialistas é que aquilo que funcionou para uma pessoa pode não servir para outra. Cada um de nós tem o seu ritmo de vida, os seus níveis de stress, hábitos alimentares e estado de saúde.

Quando pessoas sem formação adequada começam a dar conselhos universais, podem levar outras a restrições alimentares severas e a exercício excessivo. Isto aumenta o risco de défices nutricionais, alterações do ciclo menstrual e lesões, sobretudo enquanto o corpo ainda está a crescer.

O crescimento e o desenvolvimento anatómico vão além do aumento do tamanho do corpo: envolvem uma reorganização complexa das suas estruturas. Os órgãos e os tecidos amadurecem a ritmos diferentes, e as hormonas têm um papel importante nesse processo.

Magia numa seringa: como funcionam o Ozempic e o Mounjaro e o que convém saber

O mundo vive uma nova onda de popularidade dos medicamentos à base de semaglutido e tirzepatida: Ozempic, Wegovy, Mounjaro e outros.

De forma simples, o semaglutido atua nos recetores da hormona GLP-1, enquanto a tirzepatida atua nos recetores de duas hormonas, GLP-1 e GIP. Estes medicamentos influenciam a regulação do apetite e também podem abrandar o esvaziamento do estômago. A pessoa sente-se saciada mais cedo e come menos. Os mecanismos de ação estão descritos na informação da Agência Europeia de Medicamentos sobre o Wegovy e o Mounjaro.

Com acompanhamento médico, são uma ferramenta importante. As indicações dependem do medicamento: o Ozempic está aprovado na UE para tratar a diabetes tipo 2, enquanto o Wegovy e o Mounjaro também são utilizados no controlo do peso em situações clínicas específicas. Mas, quando se começa a usar estas injeções por conta própria para «perder rapidamente 5 kg antes do verão», surge o outro lado da moeda.

O emagrecimento rápido, sem atenção à alimentação e ao bem-estar, pode vir acompanhado de fraqueza e de uma ingestão insuficiente de nutrientes. O rosto também pode perder o seu volume natural com a redução do tecido adiposo. Nos meios de comunicação, esta aparência ganhou o nome «Ozempic face», embora mudanças semelhantes possam surgir depois de emagrecer sem medicamentos. As fotografias de celebridades não permitem saber se tomaram medicamentos nem o que alterou a sua aparência.

Outro problema é recuperar peso depois de terminar o tratamento. Na extensão do estudo STEP 1, os participantes recuperaram, em média, cerca de dois terços do peso perdido no ano após a interrupção do semaglutido e do apoio estruturado ao estilo de vida. A obesidade é uma condição crónica, por isso este resultado não é necessariamente consequência de «falta de força de vontade» ou de um regresso aos hábitos antigos. A alimentação, o sono e a atividade física são importantes, mas algumas pessoas precisam de tratamento prolongado, planeado com o médico.

Um detalhe anatómico importante: perde-se mais do que gordura

Os estudos clínicos mostram que, ao emagrecer com estes medicamentos, pode diminuir tanto a massa gorda como a massa magra. Mas massa magra não é sinónimo de músculo: inclui também água, órgãos e outros tecidos. Por isso, a percentagem de massa magra perdida não pode ser automaticamente apresentada como percentagem de músculo perdido. Por exemplo, no estudo SURMOUNT-1, cerca de 75% da massa perdida era gordura e cerca de 25% era massa magra.

Os músculos servem para muito mais do que dar definição ao corpo. São:

  • Suporte anatómico. Os músculos ajudam a manter a postura e a estabilizar o corpo, enquanto os músculos do pavimento pélvico participam no suporte dos órgãos da pelve.
  • Proteção das articulações. Ajudam a controlar o movimento e a distribuir a carga pela coluna e pelas articulações.
  • Um motor metabólico. Os músculos utilizam glicose e têm um papel importante no metabolismo.

Se perderes força e resistência juntamente com os quilos, o número na balança pode alegrar-te, mas o corpo talvez não. Uma perda significativa de músculo pode dificultar os movimentos do dia a dia e a recuperação após o exercício.

Nota de uma especialista em reabilitação: quando estes medicamentos são tomados por indicação médica, é também necessária uma abordagem abrangente: exercícios de força adequados à capacidade de cada pessoa para preservar os músculos, proteína e outros nutrientes em quantidade suficiente, sono e atenção ao bem-estar. Os exercícios de reabilitação são acrescentados quando necessário. As recomendações profissionais de apoio à terapêutica com GLP-1 também destacam a importância da alimentação e do treino de força.

A ilusão de queimar gordura: porque caminhar é muitas vezes mais fácil do que correr no início

Quando uma pessoa com excesso de peso decide emagrecer, o primeiro pensamento é: «Calço as sapatilhas e vou correr.» Como especialista em reabilitação, digo: primeiro, vamos perceber se o corpo está preparado.

Ao correr, a carga de impacto sobre o sistema musculoesquelético é maior do que ao caminhar. Mas isso não significa que cada passo cause uma microlesão ou que correr destrua necessariamente as articulações. Num estudo com participantes da Osteoarthritis Initiative, correr não esteve associado a um risco acrescido de osteoartrose sintomática do joelho. A progressão gradual, as lesões anteriores, a dor e o nível de preparação são importantes, além do peso.

Quanto às fontes de energia, a proporção de gordura e hidratos de carbono utilizados muda com o aumento da intensidade do exercício:

  • Ao caminhar, o esforço é geralmente mais moderado e a proporção de energia proveniente da gordura pode ser maior. Muitas vezes é mais fácil e confortável caminhar durante mais tempo, sobretudo no início.
  • Ao correr a uma intensidade elevada, o organismo recorre geralmente mais aos hidratos de carbono. Mas também utiliza gordura, e a proporção depende da intensidade, da duração, da alimentação e da preparação física.

Conclusão: correr costuma gastar mais calorias por minuto, enquanto caminhar se encaixa muitas vezes mais facilmente na vida diária. A proporção de gordura utilizada num único treino não determina, por si só, quanto tecido adiposo vais perder. Para o controlo do peso, são importantes o balanço energético global e a regularidade do movimento, como explicam as recomendações do NIDDK.

Conselho de uma especialista em reabilitação: correr é um excelente exercício cardiovascular, e nem toda a gente precisa de esperar por um peso «normal» para começar. Mas, se não treinas há muito tempo ou tens dores nas articulações, caminhar a um ritmo vivo e confortável ou usar uma bicicleta estática pode ser um início mais acessível. Aumentamos a carga gradualmente e, quando há dor, escolhemos o exercício de forma individual.

As consequências do excesso de peso: vai muito além da aparência

Sou totalmente a favor do bem-estar psicológico e da aceitação de nós próprios. Ao mesmo tempo, cuidar da saúde significa prestar atenção à dor, à falta de ar e a outros sintomas. O excesso de peso, sobretudo a obesidade, pode aumentar o risco de vários problemas:

  • Disfunção do pavimento pélvico. A pressão intra-abdominal elevada pode aumentar a carga sobre os músculos do pavimento pélvico. A obesidade está associada a um risco maior de incontinência urinária e de prolapso dos órgãos pélvicos, embora estas consequências não sejam inevitáveis e o peso não seja a única causa. Esta relação é analisada em estudos sobre incontinência urinária e prolapso.
  • Sobrecarga das articulações. O peso adicional aumenta a carga sobre os joelhos e as ancas e pode dificultar o movimento. Mas as alterações da postura e a dor não são iguais em todas as pessoas.
  • Alterações hormonais e reprodutivas. O tecido adiposo participa na regulação hormonal, e o seu excesso pode afetar a saúde reprodutiva.
  • Sobrecarga do coração e dos vasos sanguíneos. Aumenta o risco de hipertensão arterial e de doenças cardiovasculares.
  • Alterações metabólicas. A sensibilidade à insulina pode diminuir e o risco de diabetes tipo 2 pode aumentar.

Estes riscos estão descritos na informação do NIDDK sobre excesso de peso e obesidade. São um motivo para prestar atenção à saúde, e não para fazer um diagnóstico pela aparência.

É particularmente doloroso quando são as crianças a enfrentar a obesidade. Uma criança ainda não tem uma compreensão formada da alimentação e do movimento, pelo que o apoio e a criação de hábitos saudáveis são responsabilidade dos adultos. Mas as causas da obesidade infantil não se resumem ao comportamento dos pais: a hereditariedade, o sono, a saúde e o ambiente também contam. Além do bullying na escola e das dificuldades emocionais, podem surgir dores articulares e outros problemas de saúde. A criança precisa de ajuda e apoio, e não de vergonha ou castigo. Podes ler mais nas recomendações do NIDDK para os pais.

Para terminar

O excesso de peso pode afetar vários sistemas do organismo, além da aparência. No nosso corpo, os órgãos e as articulações não funcionam de forma isolada: uma alteração da carga numa região pode influenciar o funcionamento de outras.

Thomas Myers, autor de Anatomy Trains (trilhos anatómicos), salienta as limitações de olhar para os músculos como estruturas separadas. Os músculos, o sistema nervoso e os tecidos conjuntivos trabalham em conjunto. Para mim, é mais um lembrete: importa olhar para o corpo como um todo e não reduzir o trabalho com ele a um número na balança.

Emagrecer e cuidar da saúde não é uma questão de desafios de influenciadores sem preparação, dietas extenuantes ou de confiar apenas em «injeções mágicas». É uma questão de compreender as necessidades do teu próprio corpo. O tratamento com indicação médica, a alimentação e o movimento podem complementar-se.

Queres abordar o excesso de peso de forma completa, tendo em conta as tuas articulações e o teu bem-estar? Não sabes por onde começar? Convido-te para uma avaliação inicial da postura e da função do pavimento pélvico e do diafragma. Vamos avaliar a tua biomecânica e escolher um plano de movimento individual, de acordo com o teu estado e as recomendações do médico. Escreve-me para marcarmos uma consulta.